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Canal do Consultório 1A

O lado sujo das Mentorias de Marketing Médico

Um médico que chegou até mim estava endividado e tinha investido 200 mil reais em uma mentoria com cursos e aulas ao vivo.

O que mais me incomodou foi a forma como essa venda aconteceu.

Ele me contou que durante a reunião questionaram que tipo de médico ele queria ser se não tomasse aquela decisão. Como se não comprar significasse querer ser um médico menor, pior ou menos comprometido com o próprio crescimento.

E precisava fechar naquela hora (lógico que não podia ter tempo para pensar).

O médico já estava endividado e assumiu um compromisso de mais 200 mil reais.

Eu fico enojado com algumas dessas técnicas que passam por cima de qualquer preocupação com a pessoa que está comprando.

E existe outra questão: essas vendas agressivas não ficam só nas mentorias.

O médico aprende que aquilo funciona e começa a levar a mesma lógica para os pacientes. Eu vejo isso todos os dias.

Se o paciente não compra o acompanhamento, é porque não está comprometido com a própria saúde. Se fala que está caro, é porque não se coloca como prioridade. Se pede para pensar, precisa de mais pressão para decidir.

Só tem uma questão: às vezes ele realmente não consegue pagar. Às vezes precisa conversar com a família ou entender melhor o que está sendo oferecido.

Você não pode transformar toda dificuldade do paciente em uma oportunidade para pressionar a compra.

As vendas são fundamentais para o consultório. O médico precisa saber apresentar uma cirurgia, explicar um plano de acompanhamento e ajudar o paciente a entender por que aquilo faz sentido para ele.

E eu acho muito importante que você aprenda a vender. Só que existem vendas e vendas. A questão é o limite dessa venda e o respeito pelo paciente durante a conversa.

Você pode usar SPIN Selling, contornar objeções e ajudar o paciente a visualizar como o tratamento pode melhorar a vida dele. Existem formas éticas, coerentes e humanas de fazer isso, e você precisa aprender a usar essas técnicas.

Não quero que você seja contra qualquer tipo de venda por causa dos exemplos ruins que existem no mercado. Você pode vender bem, respeitar o paciente e oferecer algo de que ele realmente precisa, sem pressionar ou constranger ninguém.

O paciente precisa se sentir confortável para decidir, inclusive para dizer não (a decisão precisa continuar sendo dele).

Ele não entendeu o acompanhamento? Explique. Tem dúvidas sobre o valor? Mostre o que está incluído. Não consegue pagar? Entenda se existe uma alternativa adequada e possível para ele.

Se você vai pintar um quadro futuro, fale dos benefícios possíveis, das etapas e do que depende da participação dele. Não prometa um resultado que você não consegue garantir.

Você está oferecendo algo de que ele precisa? Ele entendeu a proposta? Tem condições de assumir aquele compromisso? Pode dizer que não sem ser constrangido? (Essa última pergunta é a mais importante na minha opinião).

Você pode conseguir que o paciente compre durante uma conversa cheia de pressão. Só que ele vai sair dali se sentindo acompanhado ou vai perceber que foi levado a comprar algo que não queria?

Ele vai confiar em você? Vai querer continuar? Vai indicar o seu trabalho?

A venda que você faz hoje também interfere na retenção e na sua reputação.

E a reputação é uma das coisas mais importantes que um médico tem.

Não faz sentido colocar isso em risco para fechar um acompanhamento. Você pode ganhar aquela venda e perder a confiança de alguém que poderia continuar com você durante anos.

Sem retenção, o consultório precisa conquistar pacientes novos todos os meses apenas para manter tudo funcionando (já conversamos sobre isso por aqui).

O que eu quero que você entenda é que vender é importante. Aprender técnicas também.

Mas o objetivo precisa ser ajudar o paciente a entender e assumir um tratamento que faça sentido para ele.

Não repita com os seus pacientes a pressão que você não gostaria de sofrer ao comprar uma mentoria.

Você precisa vender, acompanhar e construir confiança para que o consultório continue crescendo ao longo dos anos. Só que faça isso de forma ética, coerente e humana.

Até, sigo com você.

Aledi